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 Adriana Calcanhotto

Tendo lançado o segundo disco de uma trilogia que fala sobre o mar, a cantora e compositora Adriana Calcanhotto nos revelou detalhes sobre Maré, o nono álbum de sua carreira. Durante um bate-papo variado, ela falou sobre turnês no exterior, a polêmica do selo musical e muito mais.

JBFM – Quando você definiu que queria lançar uma trilogia, você tinha em mente quando cada disco seria lançado? Tinha em mente mais ou menos a ligação que um disco teria com o outro? Ou em algum momento você pensou em lançar os três em seqüência?

Adriana – Eu quando fiz o primeiro Marítimo em 98, não tinha idéia de trilogia. Depois fiz outro disco e quando comecei a reparar, notei que de alguma forma as canções tinham o mar como um pano de fundo. Após isso, resolvi assumir como trilogia o segundo, Maré, pois ele foi um disco que terminei com reticências e não com um ponto final.

JBFM – E o repertório de um com o outro, sobrou alguma coisa daquele disco que você acabou aperfeiçoando para agora? Existe alguma ligação do repertório dos dois discos?

Adriana – Talvez. Eu não tenho certeza se eu cogitei o Sargaço Mar pro Marítimo. Tem canções como Mulher Sem Razão que eu cogitei gravar e acabei não gravando. No Marítimo, eu gravei o Mais Feliz que é a mesma parceria; Dé, Bebel Gilberto e Cazuza. O que eu posso dizer é que do Maré sobrou muita coisa, que ainda não sei se fazendo o terceiro vou utilizar.

JBFM – É curioso como os convidados especiais participaram do disco. O Gilberto Gil tocando violão e a Marisa Monte participando como coro no final de uma faixa. Gostaria que falasse a respeito da escolha das participações e de como elas entraram nas canções.

Adriana – Eu fui pensando nas participações, mas em que essas pessoas poderiam colaborar. Eu precisava de uma sereia, achei que a melhor seria a Marisa, também precisava de algo muito “Caymmi”, pensei logo no Gil. Queria algo diferente, sem aquela forma engessada, de um cantar o refrão, o outro cantar outra parte. Acredito que os colaboradores quando recebem um convite diferente para participarem de alguma obra, sentem-se animados, dispostos a experimentarem coisas novas. A Marisa, por exemplo, chegou no estúdio brincando de inventar sereias e cantarolando a canção que eu já havia enviado a ela. Ter convidados que gostam do que estão fazendo me dá alegria.

JBFM – O repertório reúne compositores de diversas gerações, como Caymmi, Moreno, Caetano; a escolha de cada um foi algo intencional ou você foi pesquisando e acabou acontecendo?

Adriana – Eu nunca penso em temas. Quando a canção me arrebata, eu pego pra mim, não me importo com a origem dela. Quando eu fiz os primeiros discos, principalmente o primeiro, as pessoas olhavam a contra-capa e o analisavam através dos compositores, então eu fiquei taxada de cantora eclética. Muitas vezes calha de serem escolhidos os melhores poetas, mas na verdade tudo tem um elo, um fio condutor.

JBFM – E sobre essa coisa de você mesma assinar o seu release, assinar também o faixa a faixa. Isso foi uma tentativa de mostrar uma verdade maior, de falar que não é apenas um disco e que aquilo ali está recheado da sua verdade?

Adriana – Na verdade sempre assinei o faixa a faixa. Eu vejo que isso no show ajuda muito. Quanto mais você sabe sobre os motivos de determinada canção estar junto às outras é melhor, isso facilita, aproxima. Sobre o release ter sido escrito por mim, foi sugestão do Leonardo, meu empresário. Ele me convenceu e eu acabei gostando da experiência. A pessoa quando é paga é obrigada a escrever muito bem sobre seu disco, agora você mesmo escrevendo, acaba por revelar as suas dificuldades, seus motivos...

JBFM – O povo português tem uma grande adoração pelo seu nome. Ao planejar uma turnê, você faz questão de se apresentar lá? Qual é o peso que os shows no exterior têm na sua carreira?

Adriana – Cada vez tenho feito mais shows por lá, mas não considero os países de língua portuguesa como exterior. Também gosto de fazer shows na Espanha, França, Itália. Só que nesses países latinos os discos não são lançados simultaneamente, como em Portugal. Tenho tido vontade de cantar em outros lugares, como nos Estados Unidos. Acho muito interessante quando as pessoas vêm me falar que estão aprendendo a língua portuguesa para entender as letras que estão nos meus álbuns. Fico achando isso a coisa mais incrível que o meu trabalho pode conseguir.

JBFM – E o repertório dos shows de Portugal acaba sendo o mesmo daqui? Ou é algo mais para apresentar sua carreira, recheado de sucessos antigos?

Adriana – Exatamente o mesmo espetáculo! O máximo que pode mudar é uma música ou outra que aqui as pessoas gostam mais. Eu tenho dificuldade de fazer um show de hits, não me sinto desafiada. É óbvio que têm canções que não podem faltar, aquelas que o público quer ouvir e eu não vejo motivo para frustá-lo.

JBFM – Hoje em dia, principalmente dentro da Música Popular Brasileira, é cada vez mais comum os artistas prepararem e registrarem o seu próprio selo, o que acaba os tornando meio que parceiros da gravadora. Isso lhe passa pela cabeça?

Adriana – Não me passa pela cabeça, pois tenho certeza que não seria uma boa administradora. Mal consigo administrar a minha casa, já acho muito. Eu não gostaria de perder um segundo da minha vida, trocar a leitura de um poema ou a composição de uma canção para estar assinando papéis de um selo. Estou felicíssima assim...

Julio Barbosa – Julho/ 2008

Transcrição e texto de abertura por Camila Silva

 
     

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